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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mãe

Cheguei a casa, de madrugada, arrastando-me por entre a neblina que vislumbro com os olhos e o naufrágio de uma noite interminável por ruas húmidas. Encontrei a minha mãe a dormir no sofá da sala com uma manta por cima das pernas e o jogo de tricotar encostado às suas mãos. Observei-a em silêncio. Tinha o cabelo grisalho, e a pele do rosto começara a perder a firmeza em volta dos pómulos. Contemplei aquela mulher que em tempos tinha imaginado forte, quase invencível, e vi-a frágil, derrotada sem ela saber. Derrotados porventura os dois. Inclinei-me para a cobrir com aquela manta e beijei-lhe a testa como se quisesse protege-la assim dos fios invisíveis que a afastam de mim e das minhas recordações, como se acreditasse que com aquele beijo podia enganar o tempo e convencê-la a passar de largo, a voltar outro dia, outra vida.

sábado, 4 de maio de 2013

Rotina

De calças justas, sento-me para me calçar, de atacadores atados, visto a camisola enquanto escolho o casaco para me aventurar pelo frio que teima em ser cínico, não abrindo espaço ao calor que de soslaio espreita uma ou outra vez envergonhado. De mochila às costas, escolho a banda sonora do meu dia que me acompanhará no caminho, com os auscultadores a fazerem o favor de me aquecer as orelhas, aí vou, com o peso dos dias que passam frequentemente, óculos de sol e telemóvel na mão. Com a outra, um aceno, um adeus, um até já, fecho a porta, chave no bolso, os ténis que há momentos calçara agora mexem-se um atrás do outro freneticamente, elevando a temperatura do sangue de modo a que o frio, esse chato, não seja tão rigoroso neste dia, igual a tantos outros, na rotina de uma vida, idêntica a tantas outras, num ciclo que se repete qual carro que anda em marcha atrás no tempo, voltando sempre ao mesmo ponto, um aceno, um adeus, um até já e fecho a porta.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Fixamente

Sentado, de olhos postos na janela, a vidraça que me separa do exterior, agarrado aqui me encontro, preso por uma panóplia de fios, ligações que me trazem o exterior até à membrana auditiva. Fixo o ponto comum do edíficio da frente, fustigado pela chuva interminável do inverno que passou, fixamente, no meu próprio mundo, sinto o movimento do prédio, como se pernas ganhasse, estará a minha mente a pregar me partidas? Ou será este um sinal do avançar das horas, horas essas que passo aqui sentado, de olhar penetrado nesse ponto, com o movimento da passagem do sol que hoje brilha bem alto e eu cá dentro com o mundo a passar lá fora. Separado pela vidraça, sinto que afinal, o edíficio, esse sim, me olha de soslaio fixamente, sou eu que aqui fustigado pelo passar do tempo não me movo, horas e horas parado a olhar o exterior, a olhar o prédio que me olha de volta. Somos idênticos, parados, imóveis, desamparados do tempo, que se ri de nós enquanto viaja e navega por esse mundo fora enquanto eu aqui invejo a sua mobilidade banhado pela luz do sol, criando a descrepancia entre ele, eu e o mundo. Um movimento, um piscar de olhos, e entendo, não mais existe luz, o sol caiu, elevando o meu sorriso qual balança de emoções, levanto-me, caindo qualquer ligação que prendesse na soma dos minutos entediantes igualando o vasto horário da parte de dentro da muralha de vidro. Agora sim, eu explorando o mundo, despeço-me do edíficio que me acompanhou e rio-me do vazio, do tempo que desapareceu, não mais que uma partida da mente qual controlador do tempo, para, num piscar de olhos, me aperceber que, novamente atraiçoado por esse magnata, o sol já brilha alto, e e eu aqui estou, novamente enquadrado na cadeira, a olhar fixamente o edíficio. O mundo exterior possui uma apetência de tal forma, que me consome o tempo de tal maneira imprudente que me perco nas suas manhas, direccionado para a cadeira do dia a dia, nesta jaula de vidro que me protege do tempo, num castigo interminável, devagar, sem pressas, sou eu que sou o alvo dos olhares exteriores qual estátua enferrujada esbofeteado pelo tempo, O tempo, infinito do próprio tempo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Emoldurado


Emoldurado, preso por entre quatro cantos, tapado por largas vidraças, percorro com as mãos cada linha de uma imagem que me prende a visão em um único sentido. Num quadro perfeito surjo como pintor de segunda, cujas mãos se perdem numa e apenas uma imagem de um futuro que está para vir, de nada me vale vir com rodeios, se preso neste cubículo deixei para trás o passado ao qual estes pés fugiram, atropelando o presente e esbarrando nesta tela vazia. Vazia, emoldurada, pronta a ser preenchida, aguardando pelo pináculo de algo que está para vir. Até lá, seguro-a comigo, o receio cresce, se esse momento chega e a perco de registar, de agarrar? Terei de ficar eu, emoldurado, numa tela branca que não consigo terminar? A reflexão surge, e apercebo-me, trato-me apenas de um mero servo do tempo, tempo esse que vai envelhecendo este quadro que a mim me compete apenas guardar, guardar à espera que, finalmente chegue o verdadeiro artista, artista esse que me irá preencher o vazio que está por ocupar, pincelando com uma cor só, a cor de quem ama.